Futebol - Internacional

Mercosul - 2000

Clássicos - Palmeiras 3 x Vasco 4 - Copa Mercosul 2000 Clássicos - Palmeiras 3 x Vasco 4 - Copa Mercosul 2000 (Foto: )

Campeão

A "virada do século", a Mercosul até hoje provoca uma mistura de sentimentos a todos os vascaínos que viram aquele inesquecível jogo contra o Palmeiras, no Palestra Itália.

O Vasco é o time da virada, o Vasco é o time do amor! Aos 47 minutos do segundo tempo, Romário marca o quarto gol vascaíno, o da virada de 4 a 3 sobre o Palmeiras, e o Gigante da Colina conquista o título da Mercosul de forma inesquecível. Esse é um dos lances que ficam na memória de qualquer torcedor vascaíno. E nesta tarde de segunda-feira (20/12), um dos títulos mais marcantes da história do clube completa dez anos da sua conquista. Na noite de 20 de dezembro de 2000, o Vasco conquistava a América do Sul de forma brilhante.

Após terminar o primeiro tempo com o placar de 3 a 0 para o Palmeiras, o time vascaíno voltavado a campo escutando das arquibancadas o som de "É Campeão!", cantado pelos palmeirenses. Mas o que parecia impossível aconteceu. E tudo começou aos 14 minutos do primeiro tempo, após pênalti sofrido por Juninho Paulista, Romário diminuía a vantagem para 3 a 1. Aos 23, outro pênalti sofrido por Juninho Paulista, e mais uma vez o Baixinho aproveitou. O placar já não era tão desfavorável, e o que parecia impossível estava perto de acontecer. Apesar da expulsão do zagueiro Júnior Baiano aos 32 minutos, a equipe vascaína não se desesperou e muito menos deixou de atacar. E quase no fim do jogo, aos 41 minutos após um chute do atacante Viola, o meia Juninho Paulista aproveitou o rebote para empatar a partida. O que ninguém esperava aconteceu, o Vasco empatava a partida que parecia estar perdida, restando pouco tempo para o término da decisão. Mas ainda não tinha acabado, e quando se joga contra um time que é considerado como o da "Virada", pode se esperar tudo. E foi isso que aconteceu, aos 47 minutos do segundo tempo Romário provava para todos o porquê do Vasco ser conhecido assim. Fim de jogo, placar era 4 a 3 para o Vasco, e ali todos os envolvidos na conquista deste título entravam para a história com a vitória que ficou conhecida como a "Virada do Século".

Ficha do jogo

JOGO: Vasco 4 x 3 Palmeiras-SP

DATA: Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2000

COMPETIÇÃO: Copa Mercosul

FASE: Final

LOCAL: Parque Antártica (SP)

PÚBLICO: 29.993

RENDA: Desconhecida

ÁRBITRO: Márcio Rezende de Freitas (MG/SC)

ESCALAÇÃO: Hélton, Clébson, Odvan, Junior Baiano, Jorginho Paulista, Nasa (Viola), Jorginho (Paulo Miranda), Juninho Pernambucano, Juninho Paulista, Romário, Euller (Mauro Galvão)

FORMAÇÃO: Principal

EXPULSÕES VASCO: Junior Baiano

GOLS VASCO: Romário (59' 0ºT), Romário (69' 0ºT), Juninho Paulista (86' 0ºT), Romário (93' 0ºT)

TÉCNICO VASCO: Joel Santana

ESCALAÇÃO PALMEIRAS-SP: Sérgio, Arce, Galeano, Gilmar e Tiago Silva; Fernando, Magrão, Flávio e Taddei; Juninho e Tuta (Basílio).

GOLS PALMEIRAS-SP: Arce (37 0ºT), Magrão (38 0ºT), Tuta (45 0ºT)

TÉCNICO PALMEIRAS-SP: Marco Aurélio

A trajetória da equipe na competição

O Vasco ficou o Grupo E da Mercosul ao lado de Peñarol-URU, Atlético-MG e San Lorenzo. O começo da equipe foi de dificuldade, e a classificação (em segundo lugar) só veio na última rodada, após uma vitória por 2 a 0 sobre o Galo. Nas quartas de final, o time da Colina encarou o Rosário Central e, após uma vitória por 1 a 0 e uma derrota pelo mesmo placar, a disputa foi para os pênaltis. O Vasco levou a melhor - 5 a 4 - e foi para a semi contra o River Plate, que havia eliminado o Flamengo.

O adversário, o mesmo da semi da Libertadores de 98, quando o Vasco foi campeão, novamente não foi páreo. A equipe cruzmaltina fez 4 a 1 na Argentina, 1 a 0 no Rio de Janeiro e se classificou para a final.

Antes de encarar o Palmeiras, o Vasco ainda viveu um problema de última hora. Quatro dias antes do jogo, o time enfrentou o Cruzeiro pelo semifinal do Brasileiro e empatou em casa. O técnico Oswaldo de Oliveira deu o domingo de folga para os atletas, o que desagradou Eurico Miranda. O dirigente resolveu mudar a programação, e o treinador não aceitou. Resultado: foi demitido. No domingo à tarde Joel Santana já treinava o time em São Januário.

Além do título da Mercosul, Joel conquistou o Brasileiro daquele ano.

Primeira Fase

Peñarol 4 x 3 Vasco

Vasco 3 x 0 San Lorenzo

Atlético-MG 2 x 0 Vasco

Vasco 1 x 1 Peñarol

San Lorenzo 0 x 2 Vasco

Vasco 2 x 0 Atlético-MG

Quartas de Final

Vasco 1 x 0 Rosário Central

Rosário Central 1 x 0 Vasco (Nos pênaltis, Vasco 5 a 4)

Semifinais

River Plate 1 x 4 Vasco

Vasco 1 x 0 River Plate

Finais

Vasco 2 x 0 Palmeiras

Palmeiras 1 x 0 Vasco

Palmeiras 3 x 4 Vasco

Os cinco minutos-chave da decisão contra o Palmeiras:

1' segundo tempo - Viola entra no lugar de Nasa. O atacante entrou muito bem na partida e levou o Vasco ao ataque. Ele infernizou os defensores e teve grande importância para a virada.

13' - Gol de Romário - O Baixinho cobra bem pênalti sofrido por Juninho Paulista e incia a reação cruzmaltina.

23' - Gol de Romário - A história se repete. Em novo pênalti sofrido por Juninho Paulista, o Baixinho cobra no mesmo canto e coloca 3 a 2 no placar.

40' - Gol de Juninho Paulista - O meia aproveita cochilada da zaga palmeirense e, de perna esquerda, chuta para o fundo da rede. Era o empate.

48' - Gol de Romário, o da virada - Após bate-rebate, a bola sobrou livre para quem sabe tudo dentro da área. O Baixinho não perdoou novamente: 4 a 3 para o Vasco.

Os cinco jogadores mais importantes da campanha:

ROMÁRIO

O craque fez 11 gols na campanha, três deles só na finalíssima contra o Palmeiras.

Capitão da equipe, o camisa 11 foi o jogador mais decisivo do Vasco na competição.

JUNINHO PAULISTA

Veloz e habilidoso, Juninho Paulista foi constantemente uma grande arma para furar as zagas adversárias. Na final contra o Palmeiras, fez um dos gols e sofreu dois pênaltis. No total, ele balançou a rede cinco vezes na competição.

JUNINHO PERNAMBUCANO

Organizador do meio de campo cruzmaltino, o jogador era peça fundamental no esquema tático da equipe. Sempre regular e bom nas bolas paradas, ajudou muito na conquista.

HELTON

Sinônimo de segurança na zaga vascaína, o goleiro foi outro que teve papel importantíssimo com belas defesas. Nas quartas de final, ele foi decisivo na disputa de pênaltis contra o Rosário Central. Contra o River Plate, também teve ótima participação.

EULLER

O "Filho do Vento" foi um parceiro e tanto para o baixinho Romário. Com sua velocidade, o atacante ajudou o time a superar as defesas adversárias.

Os cinco momentos mais marcantes na opinião de Odvan:

- A nossa conversa no vestiário no intervalo do jogo foi fundamental. Nós cobramos uns aos outros, não podíamos perder daquele jeito. Voltamos e conseguimos aquela virada espetacular.

- Acho que outro momento marcante e decisivo para motivar o time naquele jogo foi o fato de a torcida do Palmeiras já ter gritado "campeão" quando eles fizeram o 3 a 0.

- O que incendiou de vez o time contra o Palmeiras foi a comemoração do Juninho Paulista na hora do gol dele. Lembro que ele saiu batendo no peito dizendo que nós iríamos virar o jogo.

- Além do duelo com o Palmeiras, o jogo contra o River, em especial a partida na Argentina, foi muito especial. A vitória por 4 a 1 nos deu tranquilidade para o segundo jogo e também a certeza de que estávamos no caminho certo para conquistar o título.

- Aquela comemoração na chegada ao Rio foi uma coisa muito especial, difícil até de falar. O que a torcida fez foi emocionante demais, nunca tinha me sentido daquele jeito. Foi muito legal mesmo.

Depoimento de PEDRINHO:

- Quando começou o segundo tempo, todo mundo estava ciente da dificuldade que seria virar o placar, mas o grupo sabia que a reação era algo viável, pois tínhamos uma equipe de muita qualidade. E apesar de tudo, todos nós sabíamos que o mínimo que devíriamos fazer era honrar a camisa do Vasco. E com o jogo rolando, foi tudo acontecendo e quando percebemos já tinha virado o jogo de uma forma incrível, eu tenho certeza de que nunca mais terá um jogo como este, foi algo inesquecível - disse ao site oficial do clube.

Cinco curiosidades sobre a conquista:

- O lateral-direito Clébson foi o único a participar de todas as partidas. O jogador morreu no ano seguinte, no dia 22 de junho de 2001, aos 22 anos, em um acidente de carro. A tragédia ocorreu no município de Serrinha-BA, próximo a Salvador. Ele estava indo para a sua cidade natal, Itiúba-BA, passar a festa de São João com os parentes.

- Romário foi o artilheiro da competição com 11 gols. Foi o segundo ano consecutivo que ele terminou como goleador. Em 1999, marcou oito pelo Flamengo. Somado os quatro gols marcados na primeira edição, o Baixinho fez 23 na Mercosul.

- A delegação vascaína chegou no aeroporto Santos Dummont no início da tarde do dia seguinte ao título. O local estava lotado de torcedores, que acompanharam os atletas no carro de bombeiro até São Januário. Na Colina, houve uma queima de fogos que durou cerca de dez minutos.

- Luizinho encerrou a carreira depois da conquista da Mercosul. O volante é o jogador que mais taças levantou na história do clube, entre elas dois Brasileiros (97 e 2000) e a Libertadores de 98.

Eurico Miranda relembra o título

Sábado, dia 16 de dezembro de 2000. O Vasco empata com o Cruzeiro em casa no primeiro jogo da semifinal da Copa João Havelange. O vice-presidente Eurico Miranda descobre que Oswaldo de Oliveira decidiu dar o domingo de folga ao elenco. O dirigente diz que não é hora para descanso, quarta-feira é dia de decisão da Copa Mercosul, e muda a programação da comissão técnica. O treinador não aceita e, com isso, secamente, é demitido pelo mandachuva ainda no vestiário do jogo contra os mineiros.

No segundo dia da série especial em homenagem à virada do século, o LANCE! conta como, até os 45 minutos do primeiro tempo da decisão contra o Palmeiras, aquela partida entrava para a história como o título perdido pelo presidente que havia decidido mandar embora o técnico a quatro dias da grande final. Uma década depois, Eurico Miranda admite o risco assumido.

– Eu sempre fui apontado como o culpado pelas derrotas. Não seria a primeira vez. Mas eu considero isso normal para quem tem de tomar decisões. O que eu não poderia deixar era que acontecesse aquela quebra de hierarquia – recorda.

Assim que o grupo foi comunicado da demissão de Oswaldo de Oliveira, alguns jogadores – Eurico Miranda prefere não revelar os nomes – foram até ele pedir que revogasse a decisão. Alegaram que o dia de folga não tiraria a concentração às vésperas da decisão internacional.

Tarde demais. Ainda no sábado, o telefone de Joel Santana tocou. Era Eurico Miranda. No domingo à tarde, o Natalino estava na Colina para comandar o primeiro treino. O mesmo Natalino que faria sua estrela brilhar ao colocar Viola no intervalo da final no Parque Antarctica.

– Um resultado como aquele não se repete. Nunca pensamos que poderíamos perder. Quando o Júnior Baiano foi expulso, não colocamos um zagueiro. Cada jogador tirou o que havia de algo mais de dentro de si naquela noite – concluiu Eurico.

Eurico lembra que chamou a pressão

Eurico Miranda ressaltou que, em um momento como aquele, em que o time perdia por 3 a 0, fez questão de ser o centro das atenções das animosidades da torcida palmeirense para tirar a pressão dos jogadores, que retornaram  a campo para tentar reverter o placar desfavorável em apenas 45 minutos:

– Estava um clima muito ruim. O vestiário, a recepção... Mas acho que isso é normal. Eu era a pessoa mais visada. O coro no estádio era “Eurico via**”. Voltei do vestiário depois das equipes e atravessei o campo sozinho, em direção ao banco, do lado oposto à saída do vestiário, para atrair um coro forte para mim. Foi proposital. Queria passar aos jogadores que, acontecesse o que acontecesse, a responsabilidade era minha.

Carlão, massagista do Vasco na época, relembra do título

CONFIRA O BATE-BOLA COM CARLÃO

Massagista do Vasco há 20 anos

Como o Vasco foi recebido no Parque Antarctica?

Chovia muito e fomos recebidos muito mal. Era uma má vontade de todos no Palmeiras. O vestiário estava terrível e depois ainda ficou estranhamente alagado. Nos a  diretoria foi agredida moralmente pelos palmeirenses, o clima era muito tenso, ruim mesmo.

Você acha que isso serviu de motivação para os jogadores?

Com certeza. Além disso, a torcida deles, no intervalo, já gritava é campeão. Essa adversidade foi importante, mexeu com os nossos jogadores.

Você acredita que aconteceu algo de divino naquela noite para o Vasco conseguir a virada?

Apesar de ser religioso, acredito que os jogadores buscava algo mais na força interna de cada um. Foi uma força superior que trouxe coragem àquele time. Não mudamos uma história com a virada. Fizemos história naquele jogo.

Como os jogadores reagiram àquela virada?

Todo mundo chorou, uns choraram compulsivamente. Além da alegria, foi a emoção. Mas cada um reage de uma forma. Fui campeão com o Vasco inúmeras vezes, mas esse título foi o único que eu comemorei com os jogadores.

Atacante Tuta, que jogava pelo Palmeiras, fala de sua decepção

Durante 45 minutos, Tuta esteve muito perto de entrar para a História como o melhor jogador da decisão da Copa Mercosul de 2000. O atacante foi quem chutou a bola rebatida por Hélton no segundo gol do Palmeiras, marcado por Magrão, e foi o autor do terceiro. Foi o centroavante quem fez com que o Parque Antarctica explodisse aos gritos de “É campeão!”, ainda no primeiro tempo.

Mas ele foi do céu ao inferno. Após o apito do árbitro Márcio Resende de Freitas, Tuta conta que saiu do gramado e, atônito, foi embora do estádio. Naquela noite, não conseguiu dormir. Mais tarde, se deu conta de que nem a medalha de vice-campeão havia levado para casa.

– Eu não conseguia acreditar. Ninguém conseguia. Jogadores, torcida, todos nós ficamos perplexos. Eu saí de um jeito ... Hoje, eu gostaria de ter aquela medalha comigo – lamenta o atacante.

Hoje, aos 36 anos, Tuta afirma que aquela geração palmeirense ficou marcada pela virada histórica. Nos clubes pelos quais passou depois daquela noite fatídica, usou a derrota como exemplo para os companheiros. Mesmo com bom retrospecto contra o Vasco, ele ainda sente o peso daquela partida:

–Pelo Vitória, vencemos o Vasco em São Januário (pelas quartas de final do Brasileiro de 1999). Pelo Flamengo, fui campeão carioca em cima deles. Mas eu trocaria essas duas conquistas pela Copa Mercosul. Aquele jogo foi a maior decepção da minha carreira.

Joel Santana e Viola: Fundamental!

Foram decisivos para aquela virada do Vasco sobre o Palmeiras na decisão da Copa Mercosul o técnico Joel Santana e o atacante Viola. O treinador surpreendeu a todos ao anunciar a entrada do jogador no intervalo. Ainda mais com a missão de atuar na ponta esquerda, como um ala, sem obrigação de marcar.

- O Joel conversou pouco com o time. Quando ele disse que colocaria o Viola de ala, eu me lembro que ninguém entendeu nada. Até porque, estavámos todos anestesiados com o resultado no primeiro tempo - lembrou o massagista Carlão.

O treinador, diante do placar adverso, avisou: era a hora do tudo ou nada. Ele tirou Nasa, principal jogador de marcação no meio, para colocar Viola. Para os homens da defesa, disse que eles teriam de se virar. Para o time, deu o tom da reação:

- Vocês possuem 45 minutos para saírem deste estádio consagrados ou debaixo de muita vergonha.

Pouco antes de subirem para o segundo tempo, Viola teve conversa ao pé do ouvido com Joel. Ele era a grande cartada. O atacante levou a mensagem do treinador até ás últimas consequências. Ele incendiou a partida, entrou com disposição e que acabou motivando a todos.

- O Viola foi o grande nome da virada. Havia três jogadores na marcação e, mesmo assim, ele partia para cima. Do banco, ficamos arrepiados. Até hoje, quando eu o encontro, digo a ele que aqueles 45 minutos em que esteve em campo foram seus os melhores pelo Vasco - concluiu Carlão.

Luizinho: Guerreiro de São Januário

Um dos maiores vencedores de títulos da história do Vasco não podia ficar de fora logo de um dos títulos mais lembrados pelos torcedores. O homenageado de hoje da série Especial Mercosul é o volante Luisinho. O jogador, que ficou conhecido como o Guerreiro de São Januário, faturou dez títulos com a camisa vascaína. Entre eles, dois Brasileiros, quatro Cariocas e a Taça Libertadores.

Para encerrar a sua carreira de forma brilhante, o volante fez parte do grupo que conquistou a Copa Mercosul, de forma histórica, ao vencer o Palmeiras, de virada, por 4 a 3, em pleno Palestra Itália.

Luisinho estava de sobreaviso naquela final, e assistiu ao jogo nos camarotes com a comissão técnica, dentro do estádio palmeirense.

Por Luisinho

"Não me lembro bem o adversário, sei que em um jogo na Argentina, nós vencemos a partida que garantiu a nossa classificação e os torcedores do time da casa queriam invadir o campo. No fim da partida, o Zé Colméia, preparador físico particular do Romário começou a discutir com os torcedores, e os caras ficaram doidos querendo bater em todo mundo, invadir vestiário, tacando tudo que tinha direito na nossa direção. Até que o Romário falou para ele se acalmar, e aos poucos, com muita escolta, conseguimos ir para o vestiário, e esperamos um bom tempo até sair do estádio. Tudo isso porque vencemos muito bem a partida. Aquele time era algo fantástico, dificilmente terá um elenco tão completo como aquele. Às vezes era melhor assistir a um coletivo nosso do que uma partida, porque a qualidade de todos era muito grande."

A virada!

– Dava para ver, eles não acreditavam que aquilo poderia acontecer. Após o nosso terceiro gol, eles se perguntaram o que era aquilo. Enquanto se questionavam, fizemos o quarto, levamos o título.

A maior vitória de um clube em todos os tempos foi escrita pela ousadia do técnico Joel Santana, pela garra de Viola, pela qualidade de Juninho Paulista e, principalmente, pela estrela dele, sempre ele, Romário. Dez anos depois da reação histórica sobre o Palmeiras, na decisão da Copa Mercosul, o LANCE! encerra a série especial sobre a virada do século com esta revelação do Baixinho. O pedido de silêncio ao marcar o gol do título não foi direcionado apenas para a torcida rival. A provocação dos jogadores palmeirenses estava engasgada na garganta do artilheiro.

– Fizemos um primeiro tempo muito ruim, as coisas não estavam dando certo. O time do Palmeiras começou a fazer os gols e, então, passou a nos desrespeitar. Não sou favorável a esse tipo de coisa no futebol, nunca fui. Aquilo nos motivou. Um jogador deles, no fim do primeiro tempo, viu um jogador nosso correndo e lhe disse: “esquece, já está 3 a 0. Essa nós já ganhamos.”

Difícil era achar quem pensasse diferente. Entretanto, pouco a pouco, o Vasco fez história. Aos 14 minutos do segundo tempo, Juninho Paulista se jogou na área. Pênalti marcado pelo árbitro Márcio Resende de Freitas. Romário cobrou e descontou. Aos 25 minutos, Juninho foi derrubado e caiu novamente. Novo pênalti que o camisa 11 converteu.

– Depois que saiu o segundo gol, vimos que o que era quase impossível, na verdade era muito difícil. Quando fizemos o terceiro, percebemos, então, que não era tão complicado assim – lembrou Romário.

O empate saiu aos 41 minutos, com Juninho Paulista: 3 a 3. Para qualquer outro time, a disputa de pênaltis já estaria de ótimo tamanho.

Não para aquele. Aos 47, Jorginho Paulista, Viola, Juninho Paulista e Romário, entre tropeços e lances de sorte, fizeram a jogada que nunca mais sairá da memória dos vascaínos. O milagre aconteceu. Amém.

Jorginho Paulista e Viola se enrolam; a bola sobra para Juninho. O chute é desviado e Romário cala São Paulo.

Alex Oliveira: "Romário falou que ia resolver"

Dez anos após o inesquecível título do Vasco na Copa Mercosul, o meia Alex Oliveira, atualmente no Macaé Esporte, contou com exclusividade para o LANCENET! o que aconteceu no vestiário da equipe cruzmaltina para que o Vasco pudesse conseguir a virada.

Jogando no Palestra Itália, o clube carioca foi para o vestiário perdendo por 3 a 0. Porém, após o intervalo, o Vasco conseguiu reverter o resultado e saiu de campo com a vitória por 4 a 3.

- Aconteceu uma situação muito curiosa naquele dia. Não estávamos acreditando que fizemos um primeiro tempo tão ruim. Quando estávamos entrando no vestiário, tinha um latão de lixo e o Viola deu um chute naquele latão, que bateu no teto e caiu no chão. O barulho foi tão forte, que até Joel jogou sua prancheta para o alto assustado - contou.

Alex ainda lembrou das palavras dos jogadores nos 15 minutos de intervalo.

- Nós estávamos perdendo por 3 a 0. Depois do episódio do latão, o Viola, que estava no banco, pediu a palavra e começou a falar. Nunca tinha visto ele falando daquele jeito. Deu uma força para o grupo. O Joel falou o que queria que fizéssemos e pediu para todo mundo acreditar até o fim. O Gigante (Juninho Paulista), também falou que iria fazer a diferença - revelou.

Mas o fato que o ex-meia do Vasco ressaltou foi em ter no grupo um jogador como o artilheiro Romário.

- O baixinho falou que era para dar a bola nele que ele iria resolver e acabou fazendo três gols. Romário sem inspiração já é preocupante, imagína naquele jogo que ele estava querendo jogar? Depois do jogo a gente via torcedores do Vasco chorando na arquibancada do Parque Antártica - disse.

Alex ainda lembrou que quando chegou ao Rio de Janeiro, a torcida do Vasco lotou o aeroporto para receber a equipe.

- Quando estávamos chegamos no Aeroporto Santos Drumond, no Rio, dava para ver aquela multidão nos esperando. Foi fantástico. Fomos recebidos por quatro mil pessoas que fizeram uma grande festa. O Brasileiro foi muito importante para mim, mas a Mercosul, pela virada, sem dúvida foi o mais marcante - destacou.

Carlos Germano e Fernando Prass:

Carlos Germano não estava em campo na virada espetacular da Copa Mercosul. Mas nem por isso deixa de ter história para contar. Na época, ele estava no Santos e sofreu com seu vizinho e os filhos, todos palmeirenses declarados. Mesmo em outro clube, Germano nunca negou a torcida pelo Vasco.

“O seu Edvar perturbou demais. Cada gol era um foguetório na minha janela. Parecia que minha casa ia explodir. Fiquei quietinho, mas, quando saiu a virada, foi a minha vez de gritar. E ele teve de aceitar (risos)”, recordou.

Fernando Prass também concorda ao dizer que foi uma das maiores viradas que já viu. “Teve uma do Milan sobre o Liverpool na Liga dos Campeões, mas a do Vasco foi toda no segundo tempo, com um a menos. Não tem como não inspirar”.

Paulo Miranda:

Rio-São Paulo, Mercosul ou Brasileiro: Qual o título mais marcante?

"Mercosul. Apesar de poucos jogadores terem um título como o Brasileiro, mas a Mercosul. Aquele 3 x 0 [O Vasco virou o primeiro tempo perdendo por esse placar]... Eu tenho a certeza de que vários flamenguista, palmeirenses que já estavam confiantes naquele título. Quem dormiu, não viu a virada. Foi uma virada inesquecível para nós. Aquele título, para mim, marcou muito."

Virada mudou a carreira dos vascaínos que o conquistaram?

"Mudou, muito. Daquele time nosso, acho que a maioria dos jogadores valorizaram bastante. Eu, logo depois, fui para o Bordeaux. Eu devo muito àquele título, àquelas conquistas que nós tivemos pelo Vasco. O Vasco para mim, marcou muito na minha vida. Por isso é que eu sempre falo, é uma equipe onde eu tenho que, se Deus quiser, encerrar a minha carreira. Ou é aqui, eu sempre falo e não tenho porque mentir, é aqui ou Atlético Paranaense."

Romário: "Foi a maior partida que já joguei"

Ao falar sobre aquela vitória sobre o Palmeiras na final da Copa Mercosul, Romário ainda emite brilho especial no olhar. Dez anos depois e carreira vitoriosa por clubes como PSV (Holanda) e Barcelona (ESP), o carinho com que descreve a virada do século chega a surpreender. O ex atacante define o jogo no Parque Antarctica com poucas, mas importantes palavras:

– Aquela, sem dúvida, foi a maior partida com a camisa de um clube que joguei. Por todas as circunstâncias: o resultado negativo, na casa do adversário, por termos conseguido reverter aqueles três gols...

Não apenas a maior partida. O ano de 2000 foi também o melhor ano da carreira de Romário em termos de clube. Aos 34 anos, o jogador quebrou o recorde de gols de Roberto Dinamite numa temporada pelo Vasco e balançou as redes nada menos do que 73 vezes, número que ele nunca havia alcançado e que nunca mais conseguiu igualar.

Além dos títulos com o Vasco – foi campeão também da Copa João Havelange –, Romário se tornou pela primeira vez artilheiro do Brasileiro. Foi eleito o melhor jogador da competição pela Revista “Placar”. Já o jornal uruguaio “El País” o elegeu o melhor jogador das Américas naquele ano, algo que ele não havia conquistado em 1994, quando foi campeão do mundo com a Seleção.

Por Mauro Galvão

"Terminou o primeiro tempo 3 a 0 para o Palmeiras, e quando chegamos ao vestiário tinha muita discussão, porque ninguém conseguia explicar o porquê de estarmos perdendo. Era muito difícil falar, pois dificilmente perdíamos alguma partida por essa diferença no placar. Não teve nada de mais no vestiário, todo mundo pergunta o que aconteceu, e nós apenas percebemos que tínhamos que jogar, não tinha outra opção. Conversamos que iríamos entrar e jogar, porque nosso time era muito bom. E graças a Deus as coisas foram acontecendo, e no final tudo deu certo, e conseguimos uma das vitórias mais marcantes para os vascaínos."


Fonte: Lancenet, GloboEsporte.com, Site Oficial do Vasco
Atualizado em: 27/10/2016 17h14
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